Exposição de Denize Torbes no Centro Cultural Correios

O Centro Cultural Correios inaugura, no dia 2 de junho, a exposição “Denize Torbes – Cerne”, com cerca de 60 obras recentes e inéditas da artista. A exposição vai ocupar duas grandes salas do terceiro andar do centro cultural com pinturas, desenhos, objetos em cerâmica e uma instalação. As obras traçam um contraponto entre o ser humano moderno e o inserido em sua cultura milenar a partir da temática da cultura indígena e das queimadas.

O título da exposição, “Cerne”, vem da parte do tronco que continua intacta após uma queimada. “O cerne na natureza é a parte da madeira queimada que não se destrói e a referência nesta série é o ressurgimento, em vestígios, de elementos próprios da cultura de povos antigos assim como a premência de regeneração, como um esforço de suportar as decorrências destrutivas da ação humana”, afirma a artista, que pesquisa a cultura indígena desde 1987, e cuja avó pertencia à tribo Guarani, localizada até hoje na fronteira entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai.

OBRAS EM EXPOSIÇÃO
No teto da primeira sala, estará a instalação “Tatuagem”, composta por uma imagem em espiral, símbolo da chuva para a tribo Guarani, onde estarão pendurados pedaços de carvão compridos, em formatos verticais, com inscrições em vermelho, comuns nas pinturas corporais de índios brasileiros. “Os desenhos constituirão uma revelação daquilo que sobreviveu ao fogo. As inscrições, minuciosamente elaboradas com linhas vermelhas sobre o preto intenso do carvão, são como ‘vestígios de labaredas’ que embora tenham alcançado o mais alto nível de destruição, são um apanágio à resistência”, conta a artista.

Divididas nesta sala e na seguinte, estarão cerca de dez pinturas inéditas, em têmpera e óleo sobre tela, produzidas entre 2010 e 2018, com tamanhos que chegam a 2mX1,80m. Todas elas possuem elementos de iconografia.

Duas séries de desenhos inéditos, “Queimada” e “Queimada-cerne”, também estarão divididos por duas salas da exposição. Apesar de alguns terem elementos iconográficos, o foco desses trabalhos são as queimadas. Os trabalhos são feitos em têmpera, que a artista mesma produz, sobre papel. Eles são realizados sem um
estudo prévio.

Já na série “Queimada-cerne” as pinturas sobre papel e sobre tela possuem composições formais que fazem uma conexão com as imagens das queimadas, mas com a introdução de formas que remetem aos objetos e pinturas das culturas indígenas.

Ao se dirigir para a segunda sala, o visitante verá, na parede da antisala, que a artista chamou de “Cofre”, um conjunto com 100 peças em cerâmica, pintados de dourado, produzidas em 2017 e 2018, intitulado “100 onças”. Nelas, há a reprodução de um padrão de desenho que os índios Assurini criaram especialmente para pintura corporal. Os motivos (desenhos) e seus significados foram extraídos de uma tabela organizada pelo índio assurini Puraké, em 1984.

Cada plaqueta contém, além do desenho, duas inscrições, o significado em guarani e a versão para o português. As placas serão colocadas lado a lado, formando uma linha contínua. “Elas são douradas para lembrarem o ouro, algo valioso. Além disso, a onça é a medida do peso do ouro, por isso elas têm esse nome”, diz a artista, que chamou o espaço de “cofre”, por abrigar “barras de ouro” indígenas.

Na segunda sala, estarão pinturas, desenhos e também um conjunto de dez cerâmicas inéditas, produzidas este ano, da série “Línguas”, em formatos que lembram uma língua. Em cada uma delas, há um grafismo e uma frase, que são “sabedorias” dos índios brasileiros Pataxó, Yanomami e Kaiapó e estrangeiros, Sioux
do Canadá e os norte-americanos Mohawk, Dakota e Ute.

“O título possui dois significados: a língua usada para comunicar os aprendizados das nações indígenas e
o aspecto formal/estético das peças”, explica a artista. Tanto nas referências indígenas quanto nas obras sobre as queimadas, o que interessa à artista é a parte visual. “O que me encanta é a imagem, a parte gráfica. O meu trabalho acaba fortalecendo o registro dessas nações, mas a intenção é a potência gráfica”, ressalta Denize Torbes.

A mostra vai até o dia 18 de julho. O Centro Cultural Correios fica na Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro. Funcionamento: de terça-feira a domingo, das 12h às 19h. Entrada gratuita.

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